Jairo Carioca

Abaixo-assinado contra a mercantilização da psicanálise

Pela defesa de uma clínica insubmissa, crítica e interseccional

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ABAIXO-ASSINADO CONTRA A MERCANTILIZAÇÃO DA PSICANÁLISE E SUA CAPTURA PELO CAPITALISMO

Nós, psicanalistas, pesquisadores, estudantes, trabalhadores da saúde mental, militantes sociais e cidadãos comprometidos com a defesa da vida e da dignidade, vimos a público manifestar nossa profunda preocupação com o avanço da mercantilização da psicanálise no Brasil.

A psicanálise não nasceu para ser mercadoria, mas para abrir espaço ao mal-estar que constitui o sujeito. Entretanto, o neoliberalismo, em sua engrenagem de captura, transformou-a em dispositivo de mercado: pacotes terapêuticos instantâneos, aplicativos de “autogestão emocional”, protocolos de adaptação ao trabalho. Essa operação não democratiza o acesso; pelo contrário, neutraliza a potência crítica da psicanálise, reduzindo o sujeito a consumidor de técnicas de bem-estar.

Como advertiu Lacan, “a psicoterapia conduz ao pior” e, ao prometer adaptação, retira do sujeito sua capacidade de invenção, esterilizando o furo que sustenta o desejo. Na lógica capitalista, o inconsciente deixa de ser espaço de verdade para tornar-se mercadoria. A morte das ideias verdadeiras aprisiona os indivíduos na administração de bens e opiniões.

O capitalismo não reprime o sintoma, ele o captura. Depressão, ansiedade e burnout tornam-se nichos de consumo, mercados bilionários de fármacos e terapias express. Transformar o sintoma em mercadoria é amputar aquilo que há de mais disruptivo na experiência analítica: a resistência ao discurso do capital.

Freud demonstrou que o laço social não se sustenta pela razão iluminista, mas pela trama inconsciente da identificação. Reich revelou como a família autoritária e a repressão sexual funcionam como matrizes da subjetividade submissa ao autoritarismo. Hoje, no Brasil, assistimos à captura dessa mesma tensão por discursos religiosos fundamentalistas e projetos políticos conservadores que, infiltrando-se também na psicanálise, a transformam em mercadoria. Já não se trata de subverter o desejo, mas de transformá-lo em objeto de adaptação ao neoliberalismo, em que “ser psicanalista” equivale a conquistar status, capital simbólico e poder de consumo.

É aqui que Lacan se impõe como contraponto: em sua ética, o chamado não é à adaptação, mas ao confronto com o real que resiste ao mercado e às ficções do bem-estar. A moral da psicanálise não é um ideal de normalização, mas uma ética do desejo que exige enfrentar o impossível, aquilo que não se deixa domesticar pela ordem capitalista. Reduzir a psicanálise a instrumento de ajuste é negar sua dimensão radical, reproduzindo corpos dóceis, desejos administrados e um inconsciente colonizado — precisamente as condições que alimentam o fascismo social.

A história nos mostra que o capitalismo sempre se reinventou sobre a violência. A transição ao capitalismo foi sustentada pela destruição do comum, pela perseguição às mulheres, pela racialização e pela divisão sexual do trabalho. A mercantilização da psicanálise repete essa lógica: esvazia o espaço do inconsciente para disciplinar corpos e subjetividades, sobretudo das mulheres, dos negros e dos pobres.

É nesse ponto que a interseccionalidade torna-se imprescindível. Sem articular gênero, raça e classe, a psicanálise corre o risco de servir ao mesmo sistema que deveria confrontar. Mas há alternativas, como lembra Nêgo Bispo: o cultivo de modos de vida insurgentes e coletivos, herdeiros de quilombos, terreiros e comunidades tradicionais. Uma psicanálise interseccional deve aprender com esses saberes: resistir à captura significa enraizar-se nos territórios periféricos. Qualquer projeto que se limite a ampliar o acesso sem preservar sua potência disruptiva não é democratização, mas pura captura pelo capital.

Por isso, reivindicamos:

  1. 1.

    A defesa intransigente da psicanálise como prática insubmissa, comprometida com a ética do desejo e com a escuta do mal-estar, recusando sua redução à técnica de adaptação ou ferramenta de produtividade.

  2. 2.

    A denúncia pública e sistemática das tentativas de captura da psicanálise por projetos neoliberais, religiosos fundamentalistas e políticas conservadoras que buscam neutralizar sua potência crítica e transformá-la em mercadoria.

  3. 3.

    O compromisso ativo com uma psicanálise interseccional, que dialogue com os saberes insurgentes e populares, reconhecendo nessas vozes a possibilidade de renovar sua função política e ética.

  4. 4.

    O fortalecimento do debate crítico sobre capitalismo e esvaziamento político da psicanálise dentro das Escolas de Formação Psicanalítica, de modo que a transmissão do saber analítico não se desconecte das lutas sociais e históricas de nosso tempo.

  5. 5.

    A rejeição radical de qualquer projeto de regulamentação, uniformização ou institucionalização burocrática que pasteurize a prática analítica, esvazie sua singularidade e a submeta à lógica da mercadoria e do status acadêmico.

  6. 6.

    A denúncia do racismo que ainda gera a exclusão sistemática que marca a história do acesso à psicanálise no Brasil, onde nós, negros e negras, seguimos enfrentando barreiras impostas pela elitização do saber, pelo custo proibitivo da formação e pela manutenção de estruturas racistas que marginalizam nossas vozes e experiências. É imperativo romper com essa herança excludente, para que a psicanálise se torne também espaço de insurgência negra e de democratização radical do cuidado e da palavra.

Conclamamos a sociedade, os coletivos de psicanalistas, as Escolas Psicanalíticas, os movimentos sociais e todos os que acreditam na dignidade do sujeito a se unirem a nós nesta luta. A psicanálise não é produto de consumo; é espaço de resistência, crítica e invenção de novos modos de existir.

Rio de Janeiro, 30 de setembro de 2025.

Assinam este manifesto

  • Jairo Carioca de Oliveira, autor do livro O Eu Rasurado: um manifesto afro-pindorâmico pela insurreição do pensável.
  • Isildinha Baptista Nogueira, autora do livro A Cor do inconsciente: significações do corpo negro.

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  1. 101.Marcia DottoriPsicanalista
  2. 102.Clarice Marques
  3. 103.Júlio Eduardo CastroUFSJ e sem filiação institucional
  4. 104.Daniela FerrazInstituto Vox
  5. 105.Adriana Augusta Lopes de Araújo Lima LinsSociedade Psicanalítica de Fortaleza (SPFOR)
  6. 106.José Augusto Venda
  7. 107.Elizabeth Galdino de LiraLaço Analítico Escola de Psicanálise
  8. 108.MARIA CORREAAcademia Friburguense de Letras
  9. 109.Solange M. CantanhedeEspaço brasileiro de psicanalise
  10. 110.AMANDA PEREIRA
  11. 111.Maria Cecilia Troia
  12. 112.RAUL FERNANDESPsicanalista autônomo
  13. 113.Maria Mattioli
  14. 114.Gilberto MassuelaPsicanalisra
  15. 115.Leila Guimarães Lobo de MendonçaEbep-Rio/Ebep-JF
  16. 116.André ConceiçãoPessoal
  17. 117.Zilda Orosco
  18. 118.Carla Brígida
  19. 119.Ana Beatriz Lima da CruzEBEP-Rio
  20. 120.Darlan Tales ZantuttiAteliê de Psicanálise (Guarapuava/PR)
  21. 121.LUANE KAFCKA SANZOVOPessoal
  22. 122.Arlan De CastroPSI CIÊNCIA DO INCONSCIENTE
  23. 123.Mario Orlando FavoritoEBEP-Rio de Janeiro
  24. 124.Fabiola BulhõesPsicanalista
  25. 125.Yvone GabrielSintufrj
  26. 126.Eurema Gallo de MoraesPessoal
  27. 127.JORGE LUIZ VeschiEBEP-Rio
  28. 128.Maria E CimentiSPPA
  29. 129.Camila LacerdaEbep-Rio
  30. 130.Rita Maria Manso de BarrosPsicanalista. Professora UERJ/UNIRIO
  31. 131.Juliana Landim Lopes
  32. 132.Nelma CabralEBEP-RIO
  33. 133.Jessica TorresEBP
  34. 134.Mônica Maria Barroso de SallesLaço Analítico Escola de Psicanálise
  35. 135.VALQUIRIA SAISSedes Sapientiae
  36. 136.Lucélia GonçalvesLaço Analítico/Escola de Psicanálise
  37. 137.Lucas Martins
  38. 138.Alan Reis Castorino
  39. 139.Mateus Guimarães BorgesEBEP JF
  40. 140.Marielena Legey
  41. 141.Soraia Gonzaga
  42. 142.Ananda Figueiredo
  43. 143.Aparecida de PaulaPessoal
  44. 144.Mayra Olivieira de MoraisPessoal
  45. 145.Celma Da Matta
  46. 146.Rose Mara Coimbra Campos AzevedoPessoal
  47. 147.Cicera Vanessa MaiaCEFET MG
  48. 148.Felipe Moreira CoutinhoProfessor de Artes - CIEP 132
  49. 149.Fabiana Louro
  50. 150.Fernando LinoPessoal
  51. 151.Bernadete da Rosa
  52. 152.Tatiane PóvoasLÁ/EP
  53. 153.Anita Regina BentoUFPR
  54. 154.NATHALIA FERREIRAPsicóloga
  55. 155.Ana da CostaCPAPEC/EPEP
  56. 156.VIVIANE PINTOInstituto freudiano dos Santos
  57. 157.Stella RangelInstituto Ser e Tempo
  58. 158.Samuel Queiroz Cavalcante Queiroz CavalcantePessoa
  59. 159.Luciano EliaLAÇO ANALITICO ESCOLA DE PSICANÁLISE
  60. 160.DANIEL REISDaniel Reis
  61. 161.Michele Borgesautora do livro: Ecos do ECA: entre a lógica do bem-estar e a ética do bem dizer
  62. 162.ALBERTO VALTER Vinagre MendesPessoal
  63. 163.Francina Evaristo de Sousa
  64. 164.Roberto Graeff RezendePontifícia universidade católica de são Paulo
  65. 165.Cristian Delgado ArantesCentro de Psicanálise Contemporânea
  66. 166.Liduina Amorim[email protected]
  67. 167.Michele Assis
  68. 168.Lidu AmitranoEscuta- Escola de Cultura e Tratamento Analítico
  69. 169.Daniela HoffbauerInstituto Nebulosa Marginal
  70. 170.DANUSA PEREIRAPESSOAL
  71. 171.Hugo Araujo de OliveiraColetivo Psicanálise Popular
  72. 172.Agna Fagundes de FariasPsicanalista
  73. 173.Márcia EvangelistaInstituto Hausberggasse
  74. 174.Natália FressatoUFPR
  75. 175.Simone Costa da Paixao PaixãoUna BH
  76. 176.Raquel PiresIPPERG
  77. 177.Maria das Graças Carvalho SedaLaço Analítico/ Escola Psicanálise
  78. 178.Teresa Cristina Gomes Sobreira da MattaPessoal
  79. 179.Maria Carolina Maia MarquesINES
  80. 180.Frederico AmitranoEscola de Cultura e Tratamento Analítico
  81. 181.Andrea DamianContemporâneo
  82. 182.Elizabeth AngeliLaço Analitico/Escola de Psicany
  83. 183.Grasiele vigasEscola da Psicanálise de Curitiba
  84. 184.Amanda Rodrigues BarbosaPessoal
  85. 185.Suzi SemanakaPsicanálise clínica
  86. 186.Fátima Wolff
  87. 187.Aldair Silva Costa Silva Costa
  88. 188.Leonardo CarvalhoAto Analítico
  89. 189.Raruza Kiara
  90. 190.Maria Eduarda Benedito Diláscio
  91. 191.Débora Rossetto
  92. 192.Rebeca OhmayeUninter
  93. 193.Eda Lúcia Damasio de AraujoPsicanalista
  94. 194.Maria da Salete Cabral Salles
  95. 195.Mirian NogueiraUFF
  96. 196.Priscila Melillo de MagalhãesEspaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos - EBEP-RIO
  97. 197.Walter Soares Carlos Vaz JuniorInstituto Vaz Psicoterapias
  98. 198.Bruna Estellita
  99. 199.Clara Isabelle das Neves GonçalvesUFSCar
  100. 200.Aldo PontesCefas

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