Jairo Carioca

Abaixo-assinado contra a mercantilização da psicanálise

Pela defesa de uma clínica insubmissa, crítica e interseccional

1.132

pessoas já assinaram

Assine também →

ABAIXO-ASSINADO CONTRA A MERCANTILIZAÇÃO DA PSICANÁLISE E SUA CAPTURA PELO CAPITALISMO

Nós, psicanalistas, pesquisadores, estudantes, trabalhadores da saúde mental, militantes sociais e cidadãos comprometidos com a defesa da vida e da dignidade, vimos a público manifestar nossa profunda preocupação com o avanço da mercantilização da psicanálise no Brasil.

A psicanálise não nasceu para ser mercadoria, mas para abrir espaço ao mal-estar que constitui o sujeito. Entretanto, o neoliberalismo, em sua engrenagem de captura, transformou-a em dispositivo de mercado: pacotes terapêuticos instantâneos, aplicativos de “autogestão emocional”, protocolos de adaptação ao trabalho. Essa operação não democratiza o acesso; pelo contrário, neutraliza a potência crítica da psicanálise, reduzindo o sujeito a consumidor de técnicas de bem-estar.

Como advertiu Lacan, “a psicoterapia conduz ao pior” e, ao prometer adaptação, retira do sujeito sua capacidade de invenção, esterilizando o furo que sustenta o desejo. Na lógica capitalista, o inconsciente deixa de ser espaço de verdade para tornar-se mercadoria. A morte das ideias verdadeiras aprisiona os indivíduos na administração de bens e opiniões.

O capitalismo não reprime o sintoma, ele o captura. Depressão, ansiedade e burnout tornam-se nichos de consumo, mercados bilionários de fármacos e terapias express. Transformar o sintoma em mercadoria é amputar aquilo que há de mais disruptivo na experiência analítica: a resistência ao discurso do capital.

Freud demonstrou que o laço social não se sustenta pela razão iluminista, mas pela trama inconsciente da identificação. Reich revelou como a família autoritária e a repressão sexual funcionam como matrizes da subjetividade submissa ao autoritarismo. Hoje, no Brasil, assistimos à captura dessa mesma tensão por discursos religiosos fundamentalistas e projetos políticos conservadores que, infiltrando-se também na psicanálise, a transformam em mercadoria. Já não se trata de subverter o desejo, mas de transformá-lo em objeto de adaptação ao neoliberalismo, em que “ser psicanalista” equivale a conquistar status, capital simbólico e poder de consumo.

É aqui que Lacan se impõe como contraponto: em sua ética, o chamado não é à adaptação, mas ao confronto com o real que resiste ao mercado e às ficções do bem-estar. A moral da psicanálise não é um ideal de normalização, mas uma ética do desejo que exige enfrentar o impossível, aquilo que não se deixa domesticar pela ordem capitalista. Reduzir a psicanálise a instrumento de ajuste é negar sua dimensão radical, reproduzindo corpos dóceis, desejos administrados e um inconsciente colonizado — precisamente as condições que alimentam o fascismo social.

A história nos mostra que o capitalismo sempre se reinventou sobre a violência. A transição ao capitalismo foi sustentada pela destruição do comum, pela perseguição às mulheres, pela racialização e pela divisão sexual do trabalho. A mercantilização da psicanálise repete essa lógica: esvazia o espaço do inconsciente para disciplinar corpos e subjetividades, sobretudo das mulheres, dos negros e dos pobres.

É nesse ponto que a interseccionalidade torna-se imprescindível. Sem articular gênero, raça e classe, a psicanálise corre o risco de servir ao mesmo sistema que deveria confrontar. Mas há alternativas, como lembra Nêgo Bispo: o cultivo de modos de vida insurgentes e coletivos, herdeiros de quilombos, terreiros e comunidades tradicionais. Uma psicanálise interseccional deve aprender com esses saberes: resistir à captura significa enraizar-se nos territórios periféricos. Qualquer projeto que se limite a ampliar o acesso sem preservar sua potência disruptiva não é democratização, mas pura captura pelo capital.

Por isso, reivindicamos:

  1. 1.

    A defesa intransigente da psicanálise como prática insubmissa, comprometida com a ética do desejo e com a escuta do mal-estar, recusando sua redução à técnica de adaptação ou ferramenta de produtividade.

  2. 2.

    A denúncia pública e sistemática das tentativas de captura da psicanálise por projetos neoliberais, religiosos fundamentalistas e políticas conservadoras que buscam neutralizar sua potência crítica e transformá-la em mercadoria.

  3. 3.

    O compromisso ativo com uma psicanálise interseccional, que dialogue com os saberes insurgentes e populares, reconhecendo nessas vozes a possibilidade de renovar sua função política e ética.

  4. 4.

    O fortalecimento do debate crítico sobre capitalismo e esvaziamento político da psicanálise dentro das Escolas de Formação Psicanalítica, de modo que a transmissão do saber analítico não se desconecte das lutas sociais e históricas de nosso tempo.

  5. 5.

    A rejeição radical de qualquer projeto de regulamentação, uniformização ou institucionalização burocrática que pasteurize a prática analítica, esvazie sua singularidade e a submeta à lógica da mercadoria e do status acadêmico.

  6. 6.

    A denúncia do racismo que ainda gera a exclusão sistemática que marca a história do acesso à psicanálise no Brasil, onde nós, negros e negras, seguimos enfrentando barreiras impostas pela elitização do saber, pelo custo proibitivo da formação e pela manutenção de estruturas racistas que marginalizam nossas vozes e experiências. É imperativo romper com essa herança excludente, para que a psicanálise se torne também espaço de insurgência negra e de democratização radical do cuidado e da palavra.

Conclamamos a sociedade, os coletivos de psicanalistas, as Escolas Psicanalíticas, os movimentos sociais e todos os que acreditam na dignidade do sujeito a se unirem a nós nesta luta. A psicanálise não é produto de consumo; é espaço de resistência, crítica e invenção de novos modos de existir.

Rio de Janeiro, 30 de setembro de 2025.

Assinam este manifesto

  • Jairo Carioca de Oliveira, autor do livro O Eu Rasurado: um manifesto afro-pindorâmico pela insurreição do pensável.
  • Isildinha Baptista Nogueira, autora do livro A Cor do inconsciente: significações do corpo negro.

Quem já assinou

1.132 pessoas já assinaram este manifesto.

  1. 601.Renata FerreiraInstituto de psicanálise humanista de Santa Maria
  2. 602.MARCIO BRIXNER
  3. 603.Aline NascimentoSanta Ursula
  4. 604.EDMAR MOREIRAMilitar da Reserva
  5. 605.Elisete Batista dos Santos MartinezIllumen
  6. 606.Fernanda P ReinaldoItpoh
  7. 607.Sergio JungerSociedade Capixaba de Psicanálise
  8. 608.Renato LibermanNUCLEO DE PESQUISAS PSICANALITICAS
  9. 609.Rosângela Conceição Machado do AmaralInstituto de Psicanálise Humanista
  10. 610.Greice MichelInstituto de Psicanálise Humanista
  11. 611.Izabel Cristina Japur NemitzPessoal
  12. 612.WEVERSON DE MOURA
  13. 613.Iara GomesOrganização pessoal
  14. 614.Karina Alves de SousaPessoal
  15. 615.Juliana Ferri de oliveiraEscola freudiana de Vitória
  16. 616.Silvana AraujoPessoal
  17. 617.Najla AssyPessoal
  18. 618.Leandro da Silva LimaNPP
  19. 619.Nair Roselis Medeiros BorgesITPH Santa Maria RS
  20. 620.Paulo JunqueiraSPCRJ
  21. 621.Áurea Radinê B. FernandesPsicologia Clínica - CRP/PE
  22. 622.JEFFERSON DIAS FREITAS Dias Freitas
  23. 623.Fernanda MishimaUSP
  24. 624.Lais de Oliveira DornelesInstituto de Psicanálise Humanista - ITPH
  25. 625.Paula Lazara Silva
  26. 626.Lorrayne FurlaniEscola Freudiana de Vitória
  27. 627.Mariana Pulino TubinoITPH - Instituto de Psicanálise Humanista
  28. 628.Maria Ivone TorresPessoal
  29. 629.Roberta MeloNúcleo Brasileiro de Pesquisas Psicanalíticas
  30. 630.Leila Acosta PinhoITPH - Instituto de Psicanálise Humanista
  31. 631.Maria Zenilda Sales Ferreira SalesPessoal
  32. 632.Anelise Patrícia Hartmann VargasInstituto de Psicanálise Humanista
  33. 633.Diego Moreira dePessoal
  34. 634.Vanessa Lorenzoni ForgiariniITPH
  35. 635.Patrícia BrazSINPESP
  36. 636.Ione Terezinha OliveiraITPH - Instituto de Psicanálise Humanista
  37. 637.NAYARA SOUZAITPH
  38. 638.Valéria VieiraPessoal
  39. 639.Eder Domingos RibeiroPsicólogo clínico
  40. 640.Albertina de Fátima GomesITPH- Instituto de Psicanálise Humanista
  41. 641.Karla Macedo
  42. 642.Karla MacedoPessoal
  43. 643.Aldinha WelzbacherICM
  44. 644.Ângela Marta Rocha OliveiraITPH
  45. 645.Juliana Alves de MouraEstudante Escola Freudiana de vitória
  46. 646.Christine Avedikian
  47. 647.Andrea FerreiraCetep
  48. 648.Denise Rodrigues MaurícioDepartamento de Formação em Psicanálise - Instituto Sedes Sapientiae
  49. 649.Inez Rodrigues da SilvaInstituto de psicanálise Humanista IPTH
  50. 650.LURDES BEATRIZ FIOREZEITPH - Instituto de Psicanálise Humanista
  51. 651.Camila NascimentoITPH - Instituto de Psicanálise Humanista
  52. 652.Fernanda Neves FigheraITPH
  53. 653.Heloisa Helena Xavier NevesPessoal
  54. 654.Alvaro Potrich JuniorPessoal
  55. 655.Teresa Cristina Rangel Credidio ZampieriApoiar/Usp
  56. 656.Izaíde Zica
  57. 657.Marize Sudati SilvaITPH
  58. 658.Rodrigo Siqueira Borges de CarvalhoEBEP
  59. 659.Rosângela CardosoPessoal
  60. 660.Tathiana Pedrosa NunesCetapes
  61. 661.Patricia Raffin AncineloITPH- Instituto de Psicanálise Humanista
  62. 662.Sérgio Inácio da Silva[email protected]
  63. 663.Monica AbeteSinpesp Sindicato dos psicanalistas do Estado de São Paulo
  64. 664.FABIANA VasconcellosUHA
  65. 665.Najla Gergi KrouchaneSindicato dos Psicanalistas do Estado de São Paulo
  66. 666.Ronaldi Brum SeverinoEscola Freudiana de Vitória
  67. 667.Amarildo Damaceno
  68. 668.DENIZ SANCHEZNÚCLEO BRASILEIRO DE PESQUISA PSICANALITICA
  69. 669.Alberto Mário PoltronieriSINDPSI-BA
  70. 670.Aline Tatiane De CarliITPH
  71. 671.Adriana GavaSindicato dos Psicanalistas do Estado de São Paulo
  72. 672.BRUNA Osório DE ALMEIDAITPH
  73. 673.Glenda Mello
  74. 674.MARIA CORREAAcademia Friburguense de Letras
  75. 675.Thais VelecicoSINPESP
  76. 676.Nereu VelecicoSINPESP
  77. 677.MARCELO BARREIROSSINPESP
  78. 678.Ana Maria da Silva SilvaConsultório
  79. 679.Adriana CostaPessoal
  80. 680.Gratia PortoEscola de Psicanálise Xica Manicongo
  81. 681.Guilherme Martins
  82. 682.Mariana MollicaOcupação Psicanalitica
  83. 683.Nilton Junior
  84. 684.Wanda Barroso BorgesAFL
  85. 685.Glaucia MaiaPessoal
  86. 686.VITOR FANTINATTIUninove
  87. 687.Patrick Werner dos AnjosCorpo Freudiano Escola de Psicanálise
  88. 688.Talissa Violim
  89. 689.JEFFERSON PEREIRACPAPEC
  90. 690.Juliana Alves EliasEscola Psicanalítica da Escuta Periphérica
  91. 691.Patricia Lelis
  92. 692.Alexandre Magno Teixeira de CarvalhoEBEP-Rio
  93. 693.ALIPIO VallimCPAPEC
  94. 694.Fauzi Palis JuniorSociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo
  95. 695.Celso Luiz FaccioInstituto de Psicanálise Humanista de Santa Maria
  96. 696.Maristela Cabral de Freitas Guimarães
  97. 697.Jacqueline GrandeV
  98. 698.Gabriela Velame CarlettoEscola Freudiana de Vitória-ES
  99. 699.Marcelo Medeiros da SilvaEstado do Rio de.Janeiro
  100. 700.Nagela Valadão CadeUFES

Mostrando 601700 de 1.132

Assine este manifesto

Para somar sua assinatura, entre em contato. A psicanálise não é produto de consumo.